Quando os ciúmes lhe estragam a vida



O ciúme não é sinónimo de amor. Meta bem isso na cabeça, não compactue com o ciumento e não deixe que o faça infeliz.

Podíamos dividir os ciúmes em ciúmes bons e ciúmes maus. Como o colesterol, em que o bom tem um papel útil e o mau acumula-se e entope as veias, impedindo que o nosso cérebro seja irrigado com a força de que necessita, ou soltando uma placa que, pang, nos funde os fusíveis.

Pensando bem, é mesmo assim com o ciúme. Numa dose muito suave significa que não tomamos o outro como certo, que sabemos que não devemos dormir em serviço, porque a conquista se faz todos os dias. É um mecanismo eficaz de vencer a preguiça de ir ao cabeleireiro, ou ao ginásio desfazer a barriga, que nos tira do sofá para um jantar à luz das velas, ou nos leva a passar pela florista antes de chegar a casa, porque acreditamos que há por aí «rivais» com tantas qualidades como as nossas, por quem justificadamente a pessoa que amamos se pode apaixonar.

Mas todo o cuidado é pouco, porque o verdadeiro ciumento transforma-se rapidamente numa pessoa controladora, agressiva e mesmo violenta, que se destrói a si mesmo e a todos que o rodeiam. Estupidamente, convencemo-nos de que estes sintomas são uma demonstração de amor e é fácil cair na esparrela de, pelo menos numa primeira fase da relação, os interpretar como sinais exteriores de uma paixão que lisonjeia.

Mas os ciúmes não têm nada a ver com o amor, um amor saudável e a sério, mas sim com um sentimento de posse, que rapidamente se pode tornar doentio, e levar inclusivamente à aniquilação do outro, seja em termos reais (os homicídios de mulheres em Portugal estão maioritariamente ligados a crimes passionais), ou pelo menos psicológicos, recordam os especialistas.

«É um erro pensar que o ciúme envolve sempre amor. Um homem que despreza a mulher pode mesmo assim sentir ciúmes, se mais alguém olhar para ela. O que lhe provoca este sentimento não é a paixão, mas um medo de a perder para um rival, a competição com o outro - é isso que o assusta», lembra Aron Ben-Ze´ev, filósofo da universidade de Haifa.

Na realidade, «Os ciúmes dizem muito mais de nós mesmos do que do nosso parceiro», explica um extenso dossiê sobre este tema publicado na edição de verão da Psychology Today (www.psychologytoday.com) e que vale a pena ler. São as nossas inseguranças, ligadas a traços de personalidade como a neurose, a instabilidade emocional, a falta de resistência à frustração, a raiva, a ansiedade e a depressão, entre outros, que nos levam a imaginar em cada homem ou mulher que se cruza com aquele/aquela que dizemos amar, que nos deixam prisioneiros e irracionais.

O ciumento, quando imagina o seu rival, atribuí-lhe todas as qualidades e mais algumas, mesmo que nem sequer o conheça. As mulheres fazem-no constantemente em relação às mulheres com que se cruzam, numa constante comparação que resulta do pouco valor que dão a si mesmas, e os homens não lhes ficam atrás, mas tendem, por questões culturais, a esconder essa insegurança atrás de manifestações prepotentes de poder. Se ela não fica com ele por amor, que fique pelo menos por medo, é a máxima de um ciumento doente, mesmo que nem para si mesmo verbalize assim o seu comportamento.
O antídoto do ciúme é, por isso, fazer com que cresça o nosso amor próprio, percebendo quais são essas qualidades que imaginamos que o outro procura e que na realidade não são mais do que qualidades que temos e não desenvolvemos. «Uma crise de ciúmes é basicamente uma crise de identidade», diz a Psychology Today, e deve levar-nos a olhar para dentro de nós e a perceber o que é que não temos e gostaríamos de ter, empenhando-nos em desenvolver essas potencialidades que deixámos adormecer.

Tem ciúmes, por exemplo, de todas as mulheres que são cultas e informadas, ou abraçaram uma profissão que adoram, dizendo a si própria que era uma mulher assim que ele no fundo desejava (quando o pobre não está nem aí)? Então seja sincera consigo mesma e perceba que o que ansiava era ser como elas e trate de o ser.

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